Nem todo corte é ilegal — a distribuidora pode suspender o fornecimento por falta de pagamento, desde que cumpra os requisitos legais. O problema está nas situações em que esses requisitos não são observados. As mais comuns são:
1. Corte sem aviso prévio por escrito
A distribuidora não pode cortar a energia de surpresa. Antes da suspensão por inadimplência, ela precisa notificar o consumidor por escrito, informando o dia inicial do corte. A Resolução Normativa nº 1.000/2021 da ANEEL — que revogou a antiga Resolução nº 414/2010 — exige, nos casos de inadimplemento, notificação com antecedência mínima de 15 dias, que pode ser escrita, específica e com entrega comprovada, ou impressa em destaque na fatura (art. 360, §§ 1º e 2º).
2. Corte com a conta em dia
Se as faturas estão pagas e mesmo assim a energia foi cortada, trata-se de corte indevido por erro da distribuidora. Pela Resolução nº 1.000/2021, a suspensão é indevida, entre outros casos, se a fatura foi paga até a data limite contida na notificação (art. 361). Nesse caso, a distribuidora deve religar em até 4 horas (art. 362, I), não pode cobrar pela religação (art. 365, § 3º) e deve creditar ao consumidor a compensação prevista no art. 441 (art. 362, § 1º, II) — podendo ainda responder por outros danos causados.
3. Corte em dia proibido
A Lei de Concessões proíbe que a interrupção por inadimplemento se inicie na sexta-feira, no sábado ou no domingo, em feriado ou no dia anterior a feriado (art. 6º, § 4º, da Lei nº 8.987/1995, incluído pela Lei nº 14.015/2020). A Resolução nº 1.000/2021 repete a vedação e fixa o horário das 8 às 18 horas para a suspensão (art. 359). A regra evita deixar o consumidor sem o serviço nos dias em que os canais de regularização funcionam de forma limitada.
4. Corte por dívida antiga (débito pretérito)
A distribuidora não pode cortar a energia para cobrar dívidas antigas. A Resolução nº 1.000/2021 veda a suspensão após 90 dias contados da data da fatura vencida e não paga, salvo se a demora decorreu de determinação judicial ou outro motivo justificável (art. 357). Passado esse prazo, a empresa deve recorrer às vias de cobrança, não à suspensão do serviço.